
ESTUDO GLOBAL SOBRE A PARTICIPAÇÃO E CONSULTAS COM OS BENEFICI
áRIOS E POPULACÕES ATINGIDAS NO PROCESSO DE PLANEAMENTO, ADMINISTRAÇÃO, MONITORIA E AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS HUMANITÁRIOSJunho de 2002
2.1. Análise dos temas de debate
2.2. Resultados, desenvolvimento de instrumentos e identificação de boas práticas
3.1. Acções envolvidas no processo
3.2. Metodologia para o estudo técnico
3.3. Selecção dos estudos de caso
O papel da "população carente" em sua própria sobrevivência, é a questão mais difícil e desafiadora do mundo humanitário. Frequentemente citado (especialmente no Código de Conduta do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e das ONGs de assistência a calamidades), permanece essencialmente ambígua a participação dos beneficiários em operações humanitárias, extremamente limitada na maior parte do tempo. Existem boas e más razões para isto.
Várias avaliações, entretanto, têm salientado os vários pontos positivos resultantes de uma melhor participação das populações atingidas: através de análises mais refinadas e de programação mais apropriada, de implementação mais efectiva e acréscimo da responsabilidade sobre a administração durante o período do projecto. A Rede de Aprendizagem Activa para Resultados e Responsabilidades na Acção Humanitária (ALNAP) decidiu implementar este estudo com o apoio do Grupo URD.
Os principais objectivos do Estudo Global sobre Consultas e Participação com Beneficiários e Populações Atingidas no Processo de Planeamento, Administração, Monitoria e Avaliação dos Programas Humanitários são para:
A perspectiva operacional deriva da hipótese, frequentemente citada mas nem sempre demonstrada, de que a apresentação de idéias, esperanças, indicação das necessidades, responsabilidades, capacidades, estratégias dos beneficiários e das populações atingidas, durante a administração do ciclo[1] de assistência em momento de crise, melhoraria muitíssimo a assistência humanitária.
Esta questão tem sido, na realidade, o ponto central na pesquisa do Grupo URD desde a sua criação. O Grupo URD endereçou-se de várias maneiras e ângulos a este tópico[2], inclusive através de um antigo projecto chamado "parceria em momentos de crise". Este projecto analisou criticamente a participação das populações atingidas em várias operações de emergência, através de suas organizações locais. É da experiência em trabalhar com este assunto, juntamente com a grande fonte de informação e de idéias já produzidas por antigos estudos teóricos, baseadas em pesquisas práticas, debates de associações e avaliações, que o Grupo URD deseja incluir no Estudo Global sobre Participação da ALNAP. O trabalho do Grupo URD não é de natureza académica. O enfoque é baseado em sua Carta, que estipula o URD visar "assistir no melhoramento das práticas humanitárias". No meio do Estudo Global, o Grupo URD procura fornecer um esclarecimento operacional dos temas de debate, dos instrumentos e orientação para a acção e para a decisão, e uma estratégia de como promovê-los sob os auspícios da ALNAP.
2. TEMAS DE DEBATE2.1. Análise dos temas de debate
Enquanto nas últimas décadas houve um grande aumento da ajuda humanitária, esta também tem sido contestada. Uma das mais importantes críticas feitas é a de ser montada baseando-se num sistema ocidental, operando segundo as orientações do poder de cima e de ter uma extremamente limitada "capacidade de ouvir". Pelas boas ou más razões, as responsabilidades teóricas e operacionais permanecem com as ONGs.
A questão sobre a consulta e participação dos ‘beneficiários’ no contexto da ação humanitária, tem sido levantada em vários encontros e minuciosamente examinada em vários artigos e livros. Mesmo assim, pouco é conhecido sobre o real impacto na prática. Enquanto as "más práticas" são regularmente identificadas e criticadas, as "boas práticas" ainda necessitam de muito trabalho para serem identificadas e promovidas. Para nós, porém, é irrelevante o conceito de "melhores práticas". Estamos interessados em práticas boas para um contexto determinado.
Uma das primeiras perguntas é "participação de quem?"
A segunda pergunta é "participação, para que ?"
E, sem dúvidas, a terceira pergunta é "como?"
2.2. Resultados, desenvolvimento de instrumentos e identificação de boas práticas
Este Estudo Global vai dar três resultados importantes :
É fundamental que as soluções práticas venham dentro do contexto das específicas experiências de campo existentes dos vários interessados, e do ponto de vista oferecido pela análise mais teórica. Como a questão é relativamente nova, o processo de estudo deve ter uma natureza dinâmica, e a decisão de incluir qualquer possível tema adicional e resultados deverão ser parte desta dinâmica, em consulta próxima com o relevante Grupo Director da ALNAP.
2.3. Estratégia de comunicação
Com vistas a manter os membros da ALNAP e a comunidade humanitária informada e interessado no projecto, um web site especial será criado para a duração do Estudo Global. Isto permitirá:
3. METODOLOGIA
3.1. Ações envolvidas no processo
A metodologia global será composta por sete "conjuntos de acções" :
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Acção |
Descrição |
Observações |
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Acção 1 |
Inventário do trabalho feito sobre a participação. |
Conclusão de um "Estudo Técnico" para se apresentado ao Grupo Director. Este Estudo Técnico deverá conter um certo número de hipóteses de trabalho, para debates antes dos estudos de campo. |
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Acção 2 |
Primeira parte dos estudos de campo : Os "estudos sobre situações de emergência politicamente complexas". |
Durante este estudos de campo, as hipóteses elaborados durante a Acção 1 deverão ser coinfirmadas ou desaprovadas. As experiências existentes serão analisadas. As boas e más práticas serão identificadas e, pelo menos de forma geral, avaliadas. Esta fase se concluirá com o primeiro seminário, onde a informação recolhida será revista, baseado nos relatórios dos Estudo de Caso. Monografias individuais deverão estar prontas para a 12ª Bianual da ANALP, em outubro de 2002. |
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Acção 3 |
Segunda parte do estudos de campo. Os "estudos sobre desastres naturais /com início rápido". |
Situações específicas ou temas identificados como importantes e em falta, analisados nestes estudos de campo. |
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Acção 4 |
Preparação do Manual do Agente. |
Este documento será elaborado pelo Director do Projecto, em consulta próxima com os pesquisadores assistentes. Conterá indicações claras sobre as más e boas práticas, com exemplos relevantes, bem como uma tentativa de identificar os principais factores determinantes na selecção dos "elementos de validade" de cada uma dessas práticas. Antecipa-se que este "Manual do Agente" estará disponível para a 13ª Bianual em abril de 2003. (alguém de língua materna inglesa editará o documento antes de sua circulação) |
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Acção 5 |
Conferência final. |
Um tempo específico será dado, durante a 13ª Bianual ALNAP, quando o Manual do Agente e o conjunto completo de monografias será apresentado e debatido. |
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Acção 6 |
Preparação do "Livro do Relatório Geral". |
Isto será feito pelo líder da equipe, com contribuições ad-hoc dos agentes de campo (5 monografias), com a redacção final apresentada ao Grupo Dirigente para debate. (alguém de língua materna inglesa editará o documento antes de sua circulação) |
Numa fase posterior, poderá ser considerada uma 7ª Acção.
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Acção 7 |
Avaliação do trabalho realizado. |
Um avaliador externo, ou um grupo comissionado pela ALNAP, fará uma revisão dos resultados do Grupo URD e ajudará no processo de treinamento para este tipo de actividade. Os Termos de Referência serão redigidos pelo Grupo Dirigente. |
3.2. Metodologia para o estudo técnico
Uma estudo técnico será finalizado, levando em consideração os resultados dos primeiros meses de trabalho no projecto, feito pela INTRAC. Quatro elementos deverão estar presentes no estudo técnico :
O resultado disto deverá ser a identificação de um conjunto de hipóteses a serem confirmadas ou descartadas no campo, que servirão como um guia para os estudos de campo.
Para elaborar este trabalho, a equipe do URD deverá :
Um pesquisador experiente, envolvido em pesquisa anterior sobre participação em ação humanitária, dará assistência ao Director do Projecto nesta fase.
3.3. Seleção dos estudos de casos
É essencial que os estudos de caso incluam uma variedade de situações. Essa variedade deve considerar tanto os sistemas sócio-culturais, como as dinâmicas de calamidades. Dado que "emergências acentuadas" são difíceis de precisamente prever, que prolongadas crises ou emergências complexas são muito expostas, e que a reabilitação / fases iniciais de reconstrucção são crescentemente presentes na agenda humanitária, é muito importante seleccionar os estudos de caso correctamente.
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País estudo de caso |
Características |
Contexto da ajuda |
Tempo |
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Sri Lanka |
Uma prolongada "emergência complexa" da Ásia, resultante de uma guerra de liberação de longa duração e onde "o estado e as estruturas de controle" são muito fortes, de ambos os lados, apesar de já haverem sinais de que algum progresso politico poderá ser alcançado em futuro próximo. |
A emergência crítica terminou e muitos dos agentes já passaram para os programas de reabilitação |
Está quase por ser concluído |
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Colômbia |
Prolongada emergência complexa na América do Sul |
Programas de assistência para populações deslocadas e activismo de direitos humanos |
De meados de junho em diante |
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República Democrática do Congo |
Seleccionado como uma emergência complexa em África, num estado desintegrado combinado com um desastre natural de início rápido com a recente erupção do vulcão em Goma |
Prolongados programas de assistência, combinado com um conjunto de programas de emergência, num contexto de grupos da sociedade civil local e da Igreja bem desenvolvidos |
As visitas pré-campo já feitas. A equipe está sendo identificada |
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Angola |
Um contexto de imediato pós-guerra, após décadas de uma prolongada emergência complexa |
Um conjunto de assistência inicial de recuperação/reabilitação com activos programas de assistência humanitária |
A equipe por ser identificada |
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Afeganistão |
Um estudo da assistência ao terramoto, num ainda frágil ambiente de imediato pós-guerra |
Um conjunto de assistência inicial de recuperação/reabilitação, com activos programas de assistência humanitária. |
Começa no final de julho |
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Outro caso |
Início rápido |
Assistência emergencial durante a fase crítica |
Depende do tempo da ocorrência |
3.4. Métodos de pesquisa para o trabalho de campo
Esta pesquisa não é académica. Ainda assim, ela deve permanecer rigorosa. O método utilizará, o melhor possível, dois conjuntos de instrumentos :

Um adaptado Protocolo de Pesquisa será a base da metodologia. Como esta pesquisa é em métodos participativos, talvez tenha que ser ela própria "muito participativa". Uma série típica de entrevistas semi-estruturadas e abertas se altenarão com discussões em grupos e pequenos seminários em nível de campo. Os informantes relevantes serão identificados para tentarem compreender as limitações que podem tornar os processos participatórios difíceis ou mesmo perigosos (estruturas sociais, situação conflituosa, etc). Isto será feito de maneira dirigida, levando-se em consideração as questões de igualdade e étnicas.
A identificação de mecanismos de consulta e de participação, a forma como tem sido compreendidos pela população, as limitações que os afectam e seus resultados serão analisados através de um painel multi-entrada/multi-associado.
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Nível e tipo de participação
Tipo de Associado |
Identificação |
Decisão |
Implementação |
Monitoramento |
Avaliação |
Habilitação |
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Individual Homem Mulher Idosos Crianças |
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Instituições Admin. Estatal Admin. Local Militares Poder Tradicional |
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Sociedade Civil CBO ONG Local Estruturas tradicionais |
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ONG Internacional Funcionários Internacionais Funcionários Locais |
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Nações Unidas Funcionários Internacionais Funcionários Locais |
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Doadores Funcionários Internacionais Funcionários Locais |
Uma rápida revisão do debate mostra que, entre outros temas relevantes já identificados nos debates inter-agência, poderemos encontrar:
5. AVALIAÇÃO DO PROCESSO
Como a ALNAP promove a cultura da avaliação, o Estudo Global sobre a Participação irá eventualmente examinar como aplicar este conceito a todo o seu processo. Possivelmente, uma avaliação de final de projecto será planejada para uma fase posterior.
6. CONCLUSÃO
A participação das populações atingidas e suas instituições, nos diferentes estágios da acção humanitária, é fundamental para os vários dilemas do trabalho humanitário. As respostas para estes dilemas são as questões da qualidade da assistência, da propriedade dos processos e das múltiplas responsabilidades entre os vários associados.
Se a lógica na promoção da consulta e participação dos "beneficiários e populações afectadas" se tornasse mais clara e bem reconhecida pela comunidade humanitária, o "como fazer", "quando fazer e quando ser cauteloso" ainda teriam que ser clarificados e melhor compreendidos. Instrumentos já existem no "mundo em desenvolvimento". Eles precisam ser revistos para assegurar uma melhor compreensão dos "prós" e "contras" em situações de crise e perigo, ou quando existe a questão do tempo (emergências críticas). As agências não têm esperado para o Estudo Global explorar esta área. Mesmo assim, existe pouco trabalho sobre as vantagens, desvantagens e áreas de aplicação destes diferentes métodos. Também não sabemos se fazem muito sentido na acção humanitária. Se "queremos ser bons ao fazer o bem", também não desejamos fazer mal. Contribuindo para estes processos, através da participação para a elaboração de instrumentos e métodos práticos, com a sua utilização em formas simples, é o objectivo do Manual do Agente.
Temas de debate poderão, no entanto, requerer um pouco mais do que apenas um método prático : a informação acumulada proveniente do campo, extraída e analisada pelo filtro das ciências sociais é importante. É onde entram o Livro de Revisão Geral e os Estudos Monográficos.
Existem muitas dimensões políticas, éticas e deontológicas no tema para o qual, o Estudo Global sobre a Participação e Consultas com os Beneficiários e Populações Atingidas, deseja esclarecer. Contribuir para este processo é, na verdade, um engajamento que o Grupo URD teria uma grande vontade de fazer.
[1] Este Ciclo de Administração de Assistência em Momento de Crise é um desenvolvimento da versão do Ciclo de Projecto clássico, que incorpora dentro do Ciclo de Projecto elementos de administração de crises.
[2] Veja na parte III, em “Respondendo a Emergências e Promovendo o Desenvolvimento : dilemas Humanitários” (Responding to Emergency and Fostering Development : Humanitarian dilemmas), 2000, Zed Book, Londres : os estudos sobre as organizações locais do Ruanda e Burundi para desenvolver instrumentos para a análise institucional, o capítulo sobre “participação” nos Procedimentos da Conferência sobre “Crises prolongadas, crises esquecidas : desafios humanitários” (Protracted crises, forgotten crises : humanitarian challenges), Paris, dezembro de 2000; e a referência à participação do trabalho da URD na América Central (incluindo uma mini auditoria social). A maior parte deste trabalho está publicado ou disponível no web site da URD.